terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Conto de Oxóssi, 23 de junho





(barulho de água algum som meio de vento e agogô...)

Era a lua lá no céu,
A espera... a noite... era a mata...
E então as pegada da onça em cima das folha caída.
Era o arco e a flecha,
a única flecha dum arquero pelado

era os trilhos,
o brilho do oio da onça
a mão do arqueiro
a lança
o corpo
o céu
o chão
o céu
o chão...

a pata
o nada
o nada e o vôo da flecha,
da mata, a mata, o corpo que cai

(começa o toque aguerê de Oxossi)

O caçador arranca sua flecha do corpo que caiu
(...)
o caçador tem só uma flecha

(ponto de Oxossi)

Assim chega abril de 1500. Marinheiros recolhem velas e baixam âncoras. Os navios vão esperar o dia para se aproximar da costa. Na proa do seu barco, um homem não tira os olhos da terra que a noite vai apagando.


(tempo de música)

Foi-se um tempo em que
Amanaci é que era a mãe das chuva.
Um dia ela chorou pro chão e do chão brotou Apaoká, uma árvore grande, enorme... com sangue de clorofila e tetas de mulher, que num dia de lua nova, deu a luz a um menino vermelho, um curumin.

Aondê, Auá, caburé, etê.


Dentro do silêncio do coração da mata profunda, Apaoká, a Jaqueira nina seu curumim nessa noite de luar branco.


O ventre verde e úmido da selva foi o berço do curumin.
Os pé virado do curupira, as escama briante de boitatá mãe do fogo,
as barbas do homi que vira onça.

se enluxar com brinco de dente de onça


Era as sete estrelas no céu...
Era essa ciranda...
sol que gira ao redor da terra, lua que gira ao redor do sol.
e no embalo dessa roda,
um dia o curumim cresceu e virou moço.

Ganhou das estrelas um chapéu enfeitado com pena de avestruz e lembrou que antes tinha sido o pai de todas as abelhas e o rei dos elefantes.


vai curumin homi, vai andar pelos labirinto da mata...
passa na pele esse pó vermelho pra te proteger dos espírito da morte...
VAI ver arara, tatu, arucum,
Vai achar o homi de uma perna só pitano caximbo e mexeno caldo grosso no caldeirão.

Tá veno esse aí?
Esse aí é Ossanha, feiticeiro, pai das folhas, senhor da muleta e do búzio.
Esse aí é Ossanha, que deu um negócio cheiroso pro curumin tomar...

(xic xicx, som meio de pajelança, de xique-xiques, que começa muito suave, depois vai aumentando)

ruissanê, iembé, iaê....
nha nhen nhem... hemnhemnhem

nham nhemnhem nhem
escama de dragão, espiga de milho, serpente alada...

então, Abati... o cabelo de milho da menina que brinca no balanço,
menina gangorra no céu,
céu gangorra na menina...
no céu
no chão
no céu
no chão
nhe nhem?? Nhem? Nhem? ...

De onde vem? Pra onde vai? 
Das naus errantes
Quem sabe o rumo
se é tão grande o espaço?

Cascavel!!!!!!!
dá-me estas tuas asas.

Nhenhamnhenhemnhem nhemnhem
chuva de estrela caíno na cabeça do mundo...
e no jardim, yasaí, fruta vermelha que chora...

cascavel!!!!!! Dá-me tuas asas...

o bruxo milagrêro enfeitiçou o moço e
lhe contou todos os segredos das folhas e das misturas mágicas, tudo que cura e tudo que mata,
lhe mostrou cada rio estrada bicho raiz ...
Cardo-santo, Catingueira, Cunanã, Juazeiro

O mago lhe mostrou o chão, cada pio de pássaro, cada raiz, rio, estrada, estrela ...
Cefei coronae borealis pegasi scuti

Lhe deu o poder de enxergar pelas costas, pra poder ver tudo o que passava ao seu redor.

nhe nham nhemnhem nhanhemnhem ...

do clarão da lua, a espada de um irmão. Foi Ogum, o ferreiro, que que entrou pela floresta adentro pra buscá o curumim vermelho. Achou o velho com uma perna só, e com ele, o filho de Apaoká.
Então o ferreiro libertou o curumim e lhe deu um arco e uma flecha, uma flecha só, que é pro menino nunca errar seu alvo.
E o curumim virou caçador.
flechar;
caçar;
pescar;

Falou assim pra ele,
que ele era o Pai das abelhas. O Rei dos elefantes. Alaketu. Caboclo Deus Orixá, ponte entre o que foi e o que será.
o Rei de Ketu, filho e pai da fotossíntese.

As almas da floresta lhe chamaram de Oxossi, o arqueiro do olho no escuro da noite. O arqueiro que só tem uma flecha.

nhenhenhém nhem nhem...
nhamnhemnhemnhamnhamnhamnhemnhem...

Então

ele amou o vento e o rio...
ele olhou pro rio e viu espelho
olhou pro vento e viu o ar...

aí o vento foi embora e deixou um filho deles pro rio cuidar...

... pra ele se enredar emaranhar se embrenhar pelo afluentedosafluentedodoafluentedoafluenteafluenteafluentedosafluentes do rio e...
nhenhenhém nhem nhem...

 A –ba - ti... Ca-be-lo de milho
a - ba - ti... cabelo de mel...
menina no balanço,
balanço na menina
menina na gangorra menina no céu,
céu na gangorra menina na gangorra, gangorra no chão...
no céu
no chão
no céu
no chão
...














Mariana, 9 de outubro de 2009

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