terça-feira, 18 de janeiro de 2011

::: cavalo marim

então, o cavalo marinho.... um parque onde flutuam vitórias régias sob as águas de nanã... então, o cavalo marinho, seu trote irregular, seu coice espacial, seu richo imaginário, cavalo de ar água terra e fogo...

cavalo marinho estrela de ouro, condado, pernambuco

Severino Alexandre da Silva, Mestre Biu Alexandre, começou a botar figura aos 13 anos. Em 1979, fundou seu Estrela de Ouro e hoje comemora o fato de ter os filhos e netos envolvidos no brinquedo. Seu Cavalo Marinho conta também com a presença de Seu Martelo, o Mateus mais velho de Pernambuco. Martelo e outros brincantes do Cavalo Marinho Estrela de Ouro integram o elenco do grupo Grial. Em 2006, o Estrela de Ouro fez parte do Coletivo Pernambuco, representando o Brasil no evento “Brasil em Cena” na Alemanha. Compõe, junto com o Cavalo Marinho Estrela Brilhante, o Ponto de Cultura Viva Pareia!.

“É uma tradição que nós temos. Desde pequeno eu acompanho Cavalo Marinho e toda vida eu achei bonito. Toda vida eu gostei de Cavalo Marinho. Posso dizer que a cultura pra mim é uma benção e o Cavalo Marinho é o principal. Pra mim não existe outra brincadeira. Eu só me acabo dentro de Cavalo Marinho.”

http://conexaocavalomarinho-artistas.blogspot.com/2008/11/cavalo-marinho-estrela-de-ouro-mestre.html

::: pássaros e soldados

O homem mais velho do mundo.
O cego mais cego do mundo.
O búfalo, o boi e todas as casas de barro.
E todos esses homens com bigodes, que levam dentro do peito um pássaro verde que sabe assobiar e um soldado guerreiro, iniciado na arte da fé, das guerras e das bombas.
E todas essas mulheres que colecionam filhos, bijuterias e roupas coloridas com estampas de flor.

::: o persa

É sobre um vago certo estado das coisas... O que fica de cada lugar estado, de cada cidade pisada? Quanta gente tocou nessa nota de dez rúpias? Quem tocou nessa nota? O que fica no final de tudo? O sentimento raro de compartir um pôr-do-sol com um anão. Ou o olhar trocado com uma mulher que volta do trabalho do campo a casa. Olhar olhado. Depois o sorriso e o riso, que a gente se entende apesar de não haver conversado nunca. Que uma é cúmplice do que a vida fez com a outra. Eu sei como é a textura das suas mãos de enxada e semente. Ela conhece todas as minhas debilidades e espaços vazios. O que fica no final de tudo? De cada tijolo elétrico, de cada sorriso por trás de cada véu, de cada cigarro fumado por um motorista de caminhão turco, de cada azeitona e copo de chá? Parece mesmo que de tudo isso, só fica alguns versos de um persa, Omar Kayan, que diz que “o vasto mundo, um grão de areia no espaço. A ciência dos homens: palavras. Os povos, animais, as flores dos sete climas: sombras. O profundo resultado da tua meditação: nada de nada.”.

::: subterrâneo


É em Anz que estão guardadas por baixo da terra as sete cidades de pedra do oriente.
Anz é um desses lugares em que só se chega por uma casualidade ou por uma sorte qualquer. Perdida pelas veredas dos áridos sertões sírios. Protegida por seu anonimato.
Em Anz você pode sentar–se em uma de suas pequenas praças e esperar que passe algum morador, que se aproximará, perguntará seu país, seu nome e para onde você está indo. Depois talvez te convide para fazer um passeio pelas ruínas, quando talvez você conheça Rose, que pode estar voltando naquele momento de sua diária peregrinação ao templo de pedras com aparência de improviso, aonde rezam católicos ortodoxos, muçulmanos e drus por seus mortos há muitos séculos e séculos. Amém.
Então Rose vai se apresentar em seu fluente francês como libanesa, mulher de 63 anos que já viveu mais da metade de sua vida em Anz. E então Rose talvez te ensine o caminho para chegar à passagem secreta que te transporta às sete submersas cidades subterrâneas. Por onde passaram babilônicos, fenícios, gregos, romanos, árabes... Passaram e deixaram marcas. Veio o vento. Veio a poeira. A erva daninha. E cobriu Anz, que nem no mapa está sinalizada. E mesmo entre os moradores da vila, que vivem quase todos em ignorância sobre o que existe por debaixo do chão que pisam, apenas poucos sabem da entrada para as cidades secretas e tudo isso tem que ser falado em voz baixa. Shiiiiiiii... A porta de pedra. O sinal esculpido em cima da janela. O túmulo do ferreiro e da moça mais bonita da vila. O túnel que liga o templo a essa casa. O muro que protege o templo. O forno dessa cozinha.

::: pelos olhos delas


Ser mulher forasteira em terras árabes muçulmanas é poder sentar-se na sala com os homens e na cozinha com as mulheres. É escutar murmúrios de lamentos femininos. Contra o machismo. Contra os desafetos. Contra as outras mulheres do marido.
Ser mulher forasteira em terras árabes muçulmanas é um doce convite ao trabalho doméstico. Ajudar a ralar o pepino. Carregar no colo a criança bebê. Tirar leite das tetas de uma vaca. Olhar as vitrines das lojas de lingerie. Ser convidada em tom de intimação a dançar a dança do ventre na sala de uma casa de sete mulheres. Ter o cabelo penteado com azeite de oliva e a boca pintada de vermelho carmim. Sussurrar uma canção conterrânea. Ganhar pares de brinco, blusa de manga larga, batom e três anéis pra enfeitar o dedo. Porque mulher aqui tem que gostar de se enfeitar. E estar sempre linda por baixo de seus sete véus. E ter olhos que falam qualquer língua do mundo porque tiveram que aprender a falar com o mundo através dos olhos. E, muitas vezes, a calar os olhos para não abrir a boca.

::: caminho

Escrevo porque estou aqui e porque faz calor. Tenho os pés cravados na terra, terra quente, infértil - terra arenosa. É aqui que estou e só por isso que escrevo, pra tentar enganar o calor e a saudade.
Barcelona. Calle de la Argenteria. Bruxas. Profetas. Andarilhos enlouquecidos. Vagabundos. Um cachorro de três patas.
A cidade de fora pra dentro entrando obscena em toda a extensão da espinha dorsal e eu tentando atravessar a rua. Espero abrir o semáforo, que tá vermelho. Sinto o perfume bom da menina que passa por mim. Pelo Passeio do Borne, uma mulher paquistanesa vende cerveja com medo da polícia enquanto seu marido conserva suas banhas estáticas num banco qualquer desse passeio que em outros tempos foi testemunha silenciosa de cavalgadas medievais.
Do outro lado da igreja gótica me conta um anjo caído que muitos anarquistas foram assassinados aqui mesmo, nessas escadarias. Por aqui passa o caminho de Santiago, caminho que começa nos morros de Santa Tereza no Rio de Janeiro, atravessa a porta do bar de um espanhol galego e chega à Espanha.
Calle de la Argenteria. Por aqui passou Dom Quixote... Será que foi aqui que ele caiu no ridículo, que foi humilhado? Será que foi aqui que riram da cara dele?
Um pinheiro roubado do jardim labirinto da cidade.Um pedaço de música, um fio de pano, linha, botão, tesoura. Cortar o trigo e costurar o pão. Com quantos paradigmas se faz um sonho, um sonho de pó de café detergente sofá mesa?
Onde é que começa esse caminho? Quando é que é esse caminho? Cor ou pó? Convite ao caminhar? Ao fugir? Chamado pra navegar nesse rio sem água? Corda bamba estendida entre o lugar onde a gente estava e o pra onde a gente está indo? Caminho é fluxo? Refluxo? Quando foi que começou o caminho? Será que algum dia desses o caminho vai ter fim?


segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

::: pés para viajar



Quinta-feira. Dia verde. Dia sagrado para o sufismo, corrente mística poética filosófica, a via interior do islã, que aproxima o individual ao universal, o ser à realidade última. Por muito tempo abominado como bruxaria barata, heresia, satanismo, ainda hoje o sufismo é mal-visto por grande parte dos muçulmanos ortodoxos...
Em cada país o sufismo adquire nuances e cores particulares e locais. Nas montanhas do Paquistão e do Afeganistão o sufismo é respeitado e ancestral. Nos tempos antigos, aprendizes de todo o oriente iam em caravanas visitar aos sábios sufis da região. 
Faça uma pergunta e comece e girar, te dizem os sufistas.  Na Turquia a cidade de Konya é famosa pela dança dos seus dervixes vestidos de branco rodando ao redor do próprio corpo e por ser a cidade natal de um dos mais famosos sufis de toda a história, o grande sábio e poeta Rumi.  “Vem, te direi em segredo aonde leva esta dança. Vê como as partículas do ar e os grãos do deserto giram desnorteados. Cada átomo feliz ou miserável, gira apaixonado em torno do sol”, te diz Rumi. “Faltam-te pés para viajar? Viaja dentro de ti mesmo, e reflete, como a mina de rubis, os raios de sol para fora de ti. A viagem conduzirá a teu ser, transmutará teu pó em ouro puro.”
No Marrocos estão os gnawa, sufistas africanos. Antiga etnia de senegaleses que chegaram ao país há muitos séculos atrás. Celebram seu amor ao seu Deus Allah através de complexos rituais de cura que te fazem lembrar da umbanda e do candomblé afro-brasileiro.  Através da música ressonante de um baixo ancestral, o sentir, feito com couro e cordas de tripa de cabras, de cantos e danças de transe, os gnawies invocam os poderes de cura das cores em cerimônias ritualísticas e musicais que duram uma noite inteira. A Lila, a única noite. Puro transe. As mulheres se vestem a cada canção com uma túnica de uma cor diferente e entram em transe com a batida da música e da força do que dizem os cantos e caem e se debatem no chão, inconscientes; um rapaz passa a faca por todo o corpo sem se cortar; um homem anda nas brasas sem queimar os pés.
Quinta-feira. Dia em que soam os mágicos tambores sufistas pela noite lahoriana. Costume secular. É quando uma multidão de fiéis se reúne na tumba do santo sufi Baba Shah Jamal. Fiéis ao santo, ao transe, ao haxixe. 

::: redemoinhos


 
O que haverá de humano em um tijolo? E na eletricidade?
Pelo caminho, só o céu não tem cor de barro. E o véu da mulher que puxa o burro.
Três chaminés de fábricas de tijolos. Sete pequenos redemoinhos de vento e de pó. O burro, a mulher e as pilhas de tijolos de barro. Um menino deitado preguiçosamente em um carrinho de mão.
(Como nasce um furacão?)
Mãos que plantam árvores no deserto...
Tudo aqui é de uma só cor. Menos o trem que passa.
É deserto, mas já não faz tanto calor nessa época do ano...
(Antes de qualquer coisa: as ruínas da Babilônia estão soterradas em algum canto do Iraque.)
Mais de 60 chaminés e alguns pequenos protótipos de furacões.
Qualquer coisa de delírio tem essa imagem.
Qualquer coisa de abandono.
Versos de barro. Como se cada tijolo fosse uma palavra de uma língua estrangeira.
E um cemitério com lápides que são pedaços de pedras metidos na terra. A mão que fez tanto tijolo na vida e que agora descansa anônima e em paz num cemitério de barro.
O trem apita sem parar. Balochistão. Paquistão. É a estação de Queta...

::: é assim, lahore, pakistan

É assim: em Lahore, a cada noite, passa alguém por essa rua. Assobia e bate um bastão no chão, assobia e bate um bastão no chão.
É assim: dentro das casas está sempre a tevê ligada em algum canal de videoclipes.
É assim: manga batida com leite, açúcar e gelo pra beber.
É assim: o outdoor paradoxal anuncia a modernidade em inglês - “I live in the present and I move on”
É assim:  anteontem houve um atentado com bombas no centro da cidade que matou duas pessoas e feriu não sei quantas.
É assim: o Alcorão é o único livro sagrado.
E Deus é grande.
E viver é caro.
E ter filhos é obrigatório.
E Deus é grande.
(E muita gente aqui sonha em viver em Londres.)
Os militares da fronteira que duvidam da minha real identidade e quase não me deixam entrar no país por não acreditar nos 24 anos de idade que constam no meu passaporte.
Entrar em um centro comercial e ser barrada por um militar. Ato justificado como uma medida de prevenção contra o terrorismo mundial.
Uma foto da Meca na parede de um apartamento pequeno no centro da cidade.
Levar um forte tapa na nuca, dado por um cara montado em uma bicicleta, que logo saiu em disparada, velado pela noite e por suas costas de homem covarde. Será que foi porque eu estava sem o véu na cabeça?
Inferno de mel, souvenir de rodoviária.

A mulher caída numa rua perdida do centro antigo da cidade, com a cara cheia de feridas e cicatrizes, muitos mosquitos em volta da cabeça, e olhos que pareciam viver numa espécie de tormento seco.
Sutilezas insignificantes que se embalam em uma cadeia de pensamentos velozes.
E um tanto de imagem embolada celebram todas as lacunas que separam devoção de realidade. Mas realidade, para quem? Para mim? Pois esquece de tudo o que eu falei. Sou apenas uma forasteira que passava e já se vai. E já me fui.

::: mão na cabeça....

é o vento ventano no mundo.... rosa dos ventos sem direção ... viajante sem saber pra onde vai... recife... cais de sonhos e ilusões. cartão postal vesgo e fumacento, banguela e sem ar condicionado, cultural e febril. no batido da lata, crianças noiadas transitam pelas eiras sem beiras de um centro triste e noturno. deitam-se em suas camas de papelão. enquanto do outro lado, em olinda, é carnaval ... gente que vem pra brincar o maracatu, gente com o cheiro doce do álcool e o corpo melando a calor e cana de açúcar ... comigo vão tuca e flor, menina viajante de cinco meses de idade, um moranguinho boneca. em seu mundo de flor, ela nem percebe que o táxi parou e que dois policiais nos pediram pra sair do carro com as mãos na cabeça; buscavam uns ladrõezinhos. que não éramos nós. perdão. recife, mangue town. assim é o mundo, flor. mas não foi esse o mundo que sonhei pra ti...