segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

::: pés para viajar



Quinta-feira. Dia verde. Dia sagrado para o sufismo, corrente mística poética filosófica, a via interior do islã, que aproxima o individual ao universal, o ser à realidade última. Por muito tempo abominado como bruxaria barata, heresia, satanismo, ainda hoje o sufismo é mal-visto por grande parte dos muçulmanos ortodoxos...
Em cada país o sufismo adquire nuances e cores particulares e locais. Nas montanhas do Paquistão e do Afeganistão o sufismo é respeitado e ancestral. Nos tempos antigos, aprendizes de todo o oriente iam em caravanas visitar aos sábios sufis da região. 
Faça uma pergunta e comece e girar, te dizem os sufistas.  Na Turquia a cidade de Konya é famosa pela dança dos seus dervixes vestidos de branco rodando ao redor do próprio corpo e por ser a cidade natal de um dos mais famosos sufis de toda a história, o grande sábio e poeta Rumi.  “Vem, te direi em segredo aonde leva esta dança. Vê como as partículas do ar e os grãos do deserto giram desnorteados. Cada átomo feliz ou miserável, gira apaixonado em torno do sol”, te diz Rumi. “Faltam-te pés para viajar? Viaja dentro de ti mesmo, e reflete, como a mina de rubis, os raios de sol para fora de ti. A viagem conduzirá a teu ser, transmutará teu pó em ouro puro.”
No Marrocos estão os gnawa, sufistas africanos. Antiga etnia de senegaleses que chegaram ao país há muitos séculos atrás. Celebram seu amor ao seu Deus Allah através de complexos rituais de cura que te fazem lembrar da umbanda e do candomblé afro-brasileiro.  Através da música ressonante de um baixo ancestral, o sentir, feito com couro e cordas de tripa de cabras, de cantos e danças de transe, os gnawies invocam os poderes de cura das cores em cerimônias ritualísticas e musicais que duram uma noite inteira. A Lila, a única noite. Puro transe. As mulheres se vestem a cada canção com uma túnica de uma cor diferente e entram em transe com a batida da música e da força do que dizem os cantos e caem e se debatem no chão, inconscientes; um rapaz passa a faca por todo o corpo sem se cortar; um homem anda nas brasas sem queimar os pés.
Quinta-feira. Dia em que soam os mágicos tambores sufistas pela noite lahoriana. Costume secular. É quando uma multidão de fiéis se reúne na tumba do santo sufi Baba Shah Jamal. Fiéis ao santo, ao transe, ao haxixe. 

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