segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

::: é assim, lahore, pakistan

É assim: em Lahore, a cada noite, passa alguém por essa rua. Assobia e bate um bastão no chão, assobia e bate um bastão no chão.
É assim: dentro das casas está sempre a tevê ligada em algum canal de videoclipes.
É assim: manga batida com leite, açúcar e gelo pra beber.
É assim: o outdoor paradoxal anuncia a modernidade em inglês - “I live in the present and I move on”
É assim:  anteontem houve um atentado com bombas no centro da cidade que matou duas pessoas e feriu não sei quantas.
É assim: o Alcorão é o único livro sagrado.
E Deus é grande.
E viver é caro.
E ter filhos é obrigatório.
E Deus é grande.
(E muita gente aqui sonha em viver em Londres.)
Os militares da fronteira que duvidam da minha real identidade e quase não me deixam entrar no país por não acreditar nos 24 anos de idade que constam no meu passaporte.
Entrar em um centro comercial e ser barrada por um militar. Ato justificado como uma medida de prevenção contra o terrorismo mundial.
Uma foto da Meca na parede de um apartamento pequeno no centro da cidade.
Levar um forte tapa na nuca, dado por um cara montado em uma bicicleta, que logo saiu em disparada, velado pela noite e por suas costas de homem covarde. Será que foi porque eu estava sem o véu na cabeça?
Inferno de mel, souvenir de rodoviária.

A mulher caída numa rua perdida do centro antigo da cidade, com a cara cheia de feridas e cicatrizes, muitos mosquitos em volta da cabeça, e olhos que pareciam viver numa espécie de tormento seco.
Sutilezas insignificantes que se embalam em uma cadeia de pensamentos velozes.
E um tanto de imagem embolada celebram todas as lacunas que separam devoção de realidade. Mas realidade, para quem? Para mim? Pois esquece de tudo o que eu falei. Sou apenas uma forasteira que passava e já se vai. E já me fui.

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