terça-feira, 18 de janeiro de 2011

::: caminho

Escrevo porque estou aqui e porque faz calor. Tenho os pés cravados na terra, terra quente, infértil - terra arenosa. É aqui que estou e só por isso que escrevo, pra tentar enganar o calor e a saudade.
Barcelona. Calle de la Argenteria. Bruxas. Profetas. Andarilhos enlouquecidos. Vagabundos. Um cachorro de três patas.
A cidade de fora pra dentro entrando obscena em toda a extensão da espinha dorsal e eu tentando atravessar a rua. Espero abrir o semáforo, que tá vermelho. Sinto o perfume bom da menina que passa por mim. Pelo Passeio do Borne, uma mulher paquistanesa vende cerveja com medo da polícia enquanto seu marido conserva suas banhas estáticas num banco qualquer desse passeio que em outros tempos foi testemunha silenciosa de cavalgadas medievais.
Do outro lado da igreja gótica me conta um anjo caído que muitos anarquistas foram assassinados aqui mesmo, nessas escadarias. Por aqui passa o caminho de Santiago, caminho que começa nos morros de Santa Tereza no Rio de Janeiro, atravessa a porta do bar de um espanhol galego e chega à Espanha.
Calle de la Argenteria. Por aqui passou Dom Quixote... Será que foi aqui que ele caiu no ridículo, que foi humilhado? Será que foi aqui que riram da cara dele?
Um pinheiro roubado do jardim labirinto da cidade.Um pedaço de música, um fio de pano, linha, botão, tesoura. Cortar o trigo e costurar o pão. Com quantos paradigmas se faz um sonho, um sonho de pó de café detergente sofá mesa?
Onde é que começa esse caminho? Quando é que é esse caminho? Cor ou pó? Convite ao caminhar? Ao fugir? Chamado pra navegar nesse rio sem água? Corda bamba estendida entre o lugar onde a gente estava e o pra onde a gente está indo? Caminho é fluxo? Refluxo? Quando foi que começou o caminho? Será que algum dia desses o caminho vai ter fim?


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